Ruanda protesta contra Hariana Verás

 Lisboa – As autoridades do Ruanda contestaram publicamente a actuação da jornalista angolana Hariana Verás, acusando-a de parcialidade e de alinhamento com a narrativa oficial da República Democrática do Congo (RDC) no contexto do conflito na região dos Grandes Lagos.

Fonte: Club-k.net





A polémica foi exposta na edição de 7 de Fevereiro pelo jornal ruandês The Times, numa reportagem em que o ministro dos Negócios Estrangeiros do Ruanda, Olivier Nduhungirehe, questiona a credibilidade e a independência profissional da jornalista, que recentemente passou a surgir como repórter da televisão estatal congolesa (RTNC), incluindo em intervenções junto à Casa Branca, em Washington.


Segundo a publicação, Hariana Verás tem difundido, nos últimos meses, posições consideradas hostis ao Ruanda e convergentes com as narrativas oficiais de Kinshasa e do Burundi, países que visitou repetidamente, apesar de nunca ter estado no Ruanda. Durante essas deslocações, manteve encontros públicos com o Presidente congolês, Félix Tshisekedi, e com o Presidente burundês, Évariste Ndayishimiye, cujas imagens foram transmitidas pela RTNC.


A controvérsia intensificou-se após a divulgação de um vídeo gravado em frente à Casa Branca, no qual Verás surge com um microfone da RTNC, questionando a administração norte-americana sobre alegadas violações do Acordo de Washington e sobre iniciativas de paz no Sudão. Kigali considera a associação enganosa, sublinhando que o acordo diz respeito exclusivamente às relações entre Ruanda e RDC.


O Acordo de Washington foi assinado a 4 de Dezembro de 2025 pelos Presidentes Paul Kagame e Félix Tshisekedi, sob mediação dos Estados Unidos, após vários meses de negociações, não abrangendo o conflito sudanês.


Acusações de falta de transparência

Em reacção, o ministro ruandês dos Negócios Estrangeiros acusou a jornalista de falta de transparência quanto à sua relação com as autoridades congolesas, referindo que Verás se deslocou por duas vezes a Kinshasa num curto espaço de tempo, encontrou-se com o Presidente Tshisekedi e utilizou meios da televisão estatal congolesa sem esclarecer publicamente se mantém vínculos contratuais com o Estado congolês.


“Descobrimos que se apresentou na Casa Branca com um microfone da RTNC sem nunca ter revelado que poderia estar ao serviço de Kinshasa”, afirmou Nduhungirehe, classificando a actuação como enganosa e incompatível com padrões de jornalismo independente.


As críticas estenderam-se a vozes regionais. O jornalista ugandês Andrew Mwenda considerou que Hariana Verás actua como agente político e não como jornalista independente, acusando-a de contribuir para a desinformação sobre o conflito no leste da RDC.


Analistas próximos da região dos Grandes Lagos apontam ainda que a cobertura promovida por Verás omite questões centrais, como a falta de acção de Kinshasa na neutralização das FDLR, grupo armado ligado ao genocídio de 1994 no Ruanda, bem como o apoio a milícias locais conhecidas como Wazalendo.


O investigador Alex Mvuka Ntung alertou para o impacto deste tipo de cobertura, defendendo que a instrumentalização mediática em contextos de conflito “aumenta o risco de propaganda, polarização e incitamento ao ódio”.


Até ao momento, Hariana Verás não reagiu publicamente às acusações, mantendo-se o caso no centro de um debate regional sobre ética jornalística, alinhamento político e o papel dos media nos conflitos africanos.

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